domingo, 28 de março de 2021

Contradição ou diário de isolamento, em mim. - 28 de março de 2021

Tenho necessidade de viver pelo menos um dia sem preocupação. Um dia sem pensar em problemas, contas, desejos. Há alguns dias tenho prestado mais atenção à minha respiração. Por horas, parece que o ar me escapa. Sinto como se não pudesse preencher todo o meu pulmão de ar. Me dá um leve desespero. Depois eu me acalmo e faço o exercício de puxar o ar lentamente pelo nariz e soltá-lo pela boca. Repito algumas vezes, até que esqueço da sensação ruim. Hoje soube que uma pessoa que admiro, mas não conheço, não está conseguindo respirar e isso ameaça sua vida. Me deu uma angústia imensa. Na verdade me deu um aperto no peito, uma sensação de que algo se alocou dentro de mim, como uma caixinha de madeira e ela pressiona meu tórax. Enxergo a angústia dessa forma, uma pecinha que descansa no meio do peito e incomoda. Também senti minha garganta pela manhã, depois que meu marido, que reclama de uma inflamação há dias, confessou estar com medo de ser covid. Eu sei que não é, mas sei mesmo? Os dias passam e o medo aumenta, os cuidados aumentam, os vacilos são pontuais, mas não quero chamar de vacilo. Não é certo, mas não acredito que seja errado. Ver meus amigos, que também estão isolados, me renova por alguns dias. Eu não sou o chamado Alecrim Dourado, sei que deveria permanecer isolada, mas quem ainda está? Como faz pra ficar bem? Parei de beber e de comer doces e massas. Escorreguei no fim de semana, mas amanhã volto com força. Preciso entender que não posso me compensar pela tristeza cedendo ao prazer de alimentar a boca. Meu corpo precisa de menos e com qualidade. Meu corpo precisa de saúde. Meus olhos precisam de um corpo que não os deixem tristes. Eu tentei praticar o amor próprio ao meu corpo gordo. Vez ou outra, eu consigo, mas na maioria do tempo eu sinto pena de mim. Sinto raiva também, mas na maioria do tempo me sinto incapaz de conseguir dar leveza ao meu corpo. Um dia de cada vez, eu tento me cuidar. Às vezes eu falho, deixo de me olhar no espelho, mas tem noite, como hoje, que eu paro pra me ver e me amar como eu sou. Nove vidros do meu sangue me disseram que minhas vitaminas estão baixas. Sigo tomando uma penca de remédios para repor o que perdi não sei como. Tomo junto mais quatro pílulas que dizem me ajudar a perder peso. Eu não sei se acredito nelas, mas tomo. Eu não sei se acredito em mim, mas sigo. Hoje eu chorei por reconhecer erros em mim que me machucam e que machucam quem eu amo. Pensei no quanto é difícil transformar raiz em farinha. Muito amor me foi negado e hoje eu nego um tanto de amor e no segundo seguinte, a caixinha aparece lá no meio do meu peito. Eu preciso ser melhor, será que um dia eu consigo? Tenho tido medo de estar em depressão porque a tristeza dos meus dias tem permanecido, mas agora aqui pensei: “tem como ser feliz nos dias de hoje? vá lá, se dê um desconto”. Chorar me alivia, mas eu acho que já chorei tanto que tá valendo. Penso também que a correria dos meus dias não me permite chorar, não encontro tempo, aconchego, quentinho de cama. Também acho que não deveria chorar na casa que eu tanto sonhei e hoje moro. Será que um dia eu vou ser dona do meu próprio chão? Eu vivo também pra isso. Escrever diminuiu a caixinha do meu peito, escorrer três ou quatro lágrimas também. Preciso voltar a ler e quero muito organizar uma hora da minha manhã pra isso e uma hora do meu dia para exercício do corpo também. Preciso dar conta de tanta coisa, mas a verdade é que eu queria mesmo era um dia sem preocupação. Espero que lá na frente esse dia chegue e que eu perceba e agradeça por ele. E que no dia seguinte apareça um ou dois aperreios, que é pra movimentar a vida, né. Vambora.