segunda-feira, 30 de junho de 2014

Um dia após o outro

A gestação de uma vida é carregada de significados. O bebê que está sendo gerado recebe calor, alimento e afeto pelo cordão umbilical. Onde está escrito isso? Não está, mas se pensarmos bem sobre, fará algum sentido. As mães acreditam nisso, algumas pelo menos. Por isso cantam, conversam, fazem carinho. O afeto também alimenta o feto. Se você não acredita nisso e não quer ser convencido, interrompa a sua leitura. A vida é muito curta para lermos desinteresses.

Fui gerada na dor de uma gravidez não desejada. Não apenas indesejada, como frustrante. Não posso imaginar, nem de longe, o que passou minha mãe com 14 anos e uma criança crescendo em seu ventre. Ela aprendeu a amadurecer com um intensivão de conceber uma vida quando a sua estava começando a fazer sentido. Meu pai também era jovem, mais imaturo do que jovem, e tampouco preparado para assumir uma família. Hoje eu acredito que a vida se justifica com o tempo, minha mãe naquela época com certeza não acreditava. E talvez até hoje lute para acreditar.

Daí que em meio ao sufoco da situação, da incerteza de continuar com um erro, da frustração de desprogramar a vida (independente de um desejo futuro, ou não), crescia uma criança junto com seu filho. Chorei com a minha mãe, passei noites acordadas e senti a rejeição da vida junto com ela. Isso me foi revelado alguns anos depois, em um grupo de oração: “sua gestação foi embasada pela rejeição”. Sentido prático nenhum teve na hora. Ela não conhecia a minha história, eu não conhecia a minha história também. Nunca senti falta de um pai teórico. A vida me deu um pai prático que eu não poderia escolher melhor.

Hoje eu entendi de que modo se faz essa rejeição na minha vida e que preciso aprender com ela. Toda vez que recebo um não, a minha carne estremece. Toda vez que lido com o sentimento de frustração por não receber de alguém o que eu esperei, minha carne treme. Perco a base, entro em conflito. Pode parecer a maior bobagem do mundo, mas acredito na herança da minha concepção. Acredito que aprendi no ventre materno que o mundo muitas vezes me rejeitaria e que eu floresceria independente do sentimento.

Há poucos minutos eu não via o amanhã e na verdade não sei o que fazer com o que fizeram de mim, mas trago na cabeça a consciência de que há algo a ser resolvido e há um ciclo a ser completado. A forma eu descobrirei sozinha, sem querer, por acaso talvez. E o dia que eu conseguir, avançarei 30 casas no jogo da vida.

Tendo em mente o que me faz fraca, trabalho o que me faz forte. Sabendo onde mora a minha sombra, posso encará-la com menos medo. O processo está apenas começando. Hoje a minha força foi conquistada por meio da fé que me deu anjos para enxugar o meu choro, anjos que me ajudaram a enxergar além da nuvem de poeira. Amanhã precisarei neutralizar em mim os efeitos de rejeição que o mundo me impõe e será assim, um dia após o outro, até eu estar segura de que floresci mais uma vez para a vida. 

domingo, 1 de junho de 2014

Sobre sábados de manhã, feira e pastel

Desci naquele ponto mais distante. Ainda meio tonta de sono senti cheiro de pastel. Era a feira. Como eu podia não lembrar que sábado era dia de feira? Meio que por instinto atravessei a rua. Mais do que comprar frutas, fui visitar um lugarzinho da memória.
A feira me lembra o ritual matutino de todo sábado na casa da minha avó. Eu acordava cedo e partia apressada pra feira, comprar pão pro café e o que mais faltasse para o almoço. Minha tia me levava com a desculpa de ajudar a carregar as compras, mas a verdade é que ela sempre gostou da minha companhia. Eu gostava de ir porque, se visse que o dinheiro sobrava, tentava cavar um pastelzinho com caldo de cana. Pastel de queijo, o melhor do mundo! E a gente escolhia o cheiro-verde mais verdinho e cheiroso, chuchu, alface, refrigerante e a batata que eu descascaria quando chegasse em casa. Isso fazia parte da mística do sábado, assim como a fita do Luis Miguel. Lado A e lado B, tocando Contigo en la distancia, La barca e outro boleros deliciosos que embalavam a sacralidade do preparo do almoço.
Minha avó me dava uma faca sem ponta pra descascar as batatas, era quase uma faca de pão. Afinal de contas, eu já era mocinha e precisava aprender as coisas de casa. Óbvio que era uma tortura descascar legumes com uma ferramenta tão precária e talvez fosse por isso que ela me acordava tão cedo pra ir à feira. Imagina almoçar seis horas da noite. Quatro sempre me pareceu um bom horário para almoço lá em casa!
Engraçado uma feira me trazer lembranças tão deliciosas. E cheia de sono, mas feliz por estar revivendo uma sensação que me deixava feliz feito criança, escolhi umas laranjas, bananas não muito maduras (porque aprendi que estragam mais fácil) e quando vi que sobrou umas moedas fui logo tratando de pedir aquele pastelzinho de queijo. Sem caldo de cana porque depois que tive consciência da nojeira de conservação desses caldos, não tive mais coragem de tomar. Fui pela rua, cheia de sacolas de plástico e meu precioso prêmio quentinho nas mãos.

Minha infância foi cheia de simplicidade, de coisas pequenas que tinham uma importância enorme. A minha rotina de ir à feira aos sábado e descascar batatas vendo desenho talvez tenha sido a primeira responsabilidade que me foi confiada. Talvez tenha sido o ponto de partida para a minha independência. Eu amo lembrar da base que constituiu o que eu sou hoje. Amo lembrar que a feira me faz feliz. Amo pastel de queijo. Eu amo!