A gestação de uma vida é
carregada de significados. O bebê que está sendo gerado recebe calor, alimento
e afeto pelo cordão umbilical. Onde está escrito isso? Não está, mas se pensarmos
bem sobre, fará algum sentido. As mães acreditam nisso, algumas pelo menos. Por
isso cantam, conversam, fazem carinho. O afeto também alimenta o feto. Se você não
acredita nisso e não quer ser convencido, interrompa a sua leitura. A vida é
muito curta para lermos desinteresses.
Fui gerada na dor de uma gravidez
não desejada. Não apenas indesejada, como frustrante. Não posso imaginar, nem
de longe, o que passou minha mãe com 14 anos e uma criança crescendo em seu
ventre. Ela aprendeu a amadurecer com um intensivão de conceber uma vida quando
a sua estava começando a fazer sentido. Meu pai também era jovem, mais imaturo
do que jovem, e tampouco preparado para assumir uma família. Hoje eu acredito
que a vida se justifica com o tempo, minha mãe naquela época com certeza não
acreditava. E talvez até hoje lute para acreditar.
Daí que em meio ao sufoco da
situação, da incerteza de continuar com um erro, da frustração de desprogramar
a vida (independente de um desejo futuro, ou não), crescia uma criança junto com
seu filho. Chorei com a minha mãe, passei noites acordadas e senti a rejeição
da vida junto com ela. Isso me foi revelado alguns anos depois, em um grupo de
oração: “sua gestação foi embasada pela rejeição”. Sentido prático nenhum teve
na hora. Ela não conhecia a minha história, eu não conhecia a minha história
também. Nunca senti falta de um pai teórico. A vida me deu um pai prático que
eu não poderia escolher melhor.
Hoje eu entendi de que modo se
faz essa rejeição na minha vida e que preciso aprender com ela. Toda vez que
recebo um não, a minha carne estremece. Toda vez que lido com o sentimento de
frustração por não receber de alguém o que eu esperei, minha carne treme. Perco
a base, entro em conflito. Pode parecer a maior bobagem do mundo, mas acredito
na herança da minha concepção. Acredito que aprendi no ventre materno que o
mundo muitas vezes me rejeitaria e que eu floresceria independente do
sentimento.
Há poucos minutos eu não via o
amanhã e na verdade não sei o que fazer com o que fizeram de mim, mas trago na
cabeça a consciência de que há algo a ser resolvido e há um ciclo a ser
completado. A forma eu descobrirei sozinha, sem querer, por acaso talvez. E o
dia que eu conseguir, avançarei 30 casas no jogo da vida.
Tendo em mente o que me faz fraca,
trabalho o que me faz forte. Sabendo onde mora a minha sombra, posso encará-la
com menos medo. O processo está apenas começando. Hoje a minha força foi
conquistada por meio da fé que me deu anjos para enxugar o meu choro, anjos que
me ajudaram a enxergar além da nuvem de poeira. Amanhã precisarei neutralizar
em mim os efeitos de rejeição que o mundo me impõe e será assim, um dia após o
outro, até eu estar segura de que floresci mais uma vez para a vida.
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