domingo, 1 de junho de 2014

Sobre sábados de manhã, feira e pastel

Desci naquele ponto mais distante. Ainda meio tonta de sono senti cheiro de pastel. Era a feira. Como eu podia não lembrar que sábado era dia de feira? Meio que por instinto atravessei a rua. Mais do que comprar frutas, fui visitar um lugarzinho da memória.
A feira me lembra o ritual matutino de todo sábado na casa da minha avó. Eu acordava cedo e partia apressada pra feira, comprar pão pro café e o que mais faltasse para o almoço. Minha tia me levava com a desculpa de ajudar a carregar as compras, mas a verdade é que ela sempre gostou da minha companhia. Eu gostava de ir porque, se visse que o dinheiro sobrava, tentava cavar um pastelzinho com caldo de cana. Pastel de queijo, o melhor do mundo! E a gente escolhia o cheiro-verde mais verdinho e cheiroso, chuchu, alface, refrigerante e a batata que eu descascaria quando chegasse em casa. Isso fazia parte da mística do sábado, assim como a fita do Luis Miguel. Lado A e lado B, tocando Contigo en la distancia, La barca e outro boleros deliciosos que embalavam a sacralidade do preparo do almoço.
Minha avó me dava uma faca sem ponta pra descascar as batatas, era quase uma faca de pão. Afinal de contas, eu já era mocinha e precisava aprender as coisas de casa. Óbvio que era uma tortura descascar legumes com uma ferramenta tão precária e talvez fosse por isso que ela me acordava tão cedo pra ir à feira. Imagina almoçar seis horas da noite. Quatro sempre me pareceu um bom horário para almoço lá em casa!
Engraçado uma feira me trazer lembranças tão deliciosas. E cheia de sono, mas feliz por estar revivendo uma sensação que me deixava feliz feito criança, escolhi umas laranjas, bananas não muito maduras (porque aprendi que estragam mais fácil) e quando vi que sobrou umas moedas fui logo tratando de pedir aquele pastelzinho de queijo. Sem caldo de cana porque depois que tive consciência da nojeira de conservação desses caldos, não tive mais coragem de tomar. Fui pela rua, cheia de sacolas de plástico e meu precioso prêmio quentinho nas mãos.

Minha infância foi cheia de simplicidade, de coisas pequenas que tinham uma importância enorme. A minha rotina de ir à feira aos sábado e descascar batatas vendo desenho talvez tenha sido a primeira responsabilidade que me foi confiada. Talvez tenha sido o ponto de partida para a minha independência. Eu amo lembrar da base que constituiu o que eu sou hoje. Amo lembrar que a feira me faz feliz. Amo pastel de queijo. Eu amo! 

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