segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O gurufim - 28 de Junho, 2020.

Era uma terça de sol no fim de agosto, na sala apertada estavam umas 8 ou 10 pessoas. Algumas choravam, outras contavam causos da defunta. A porta da capela abriu e entrou uma jovem senhora que beirava uns 90 anos. Ela não tinha o aspecto denso como os demais e não deu espaço para que ninguém a alcançasse até que chegasse à beira do caixão. - “Inda foi antes de mim, né. Ansiosa pra caralho toda a vida, nunca vi. Vê se pelo menos manda alguma notícia de como é o inferno pra eu me preparar”. Ouviu-se alguns risos. Essa senhora era uma amiga de mocidade de Dona Camille, seu nome poderia ser uma penca: Luciana, Thayná, Roberta, Maria, Juliana, Fabiane, Carolina… mas vou manter o mistério por aqui. 


Depois disso, ela se encaminhou pra uma mulher de meia idade que chorava sentada ao lado do caixão. - “Nina, cadê seu irmão?”. A mulher afundada em lágrimas só conseguiu apontar para a direção de um botequim. A jovem senhora acrescentou: - “E tu, tá aqui chorando por quê? Essa velha safada morreu como queria: na puta que pariu, dormindo, no mês mais sem graça do ano e depois de um porre. Por falar em porre, a gente precisa adiantar o nosso pra não desagradar a finada. Bora lá encontrar seu irmão, vamos, levanta”. 


No caminho até o bar foram alguns abraços e algumas palavras de condolências. Jorge estava cantando um samba bonito de Jorge Aragão quando avistou uma das suas tias mais queridas se aproximando com sua irmã Nina. Ao lado dele mais uma penca de jovens senhores batucando e empenhados em não deixar à mostra o fundo do copo Nadir. “Não teve amor maior, ninguém foi tão melhor, como é que eu vou esquecer você…”, cantavam em coro. 


Depois do samba, Jorge foi abraçar sua tia jovem senhora. “Eu vou me mudar lá pra sua casa que agora eu não me desacostumo a cuidar de velho mais, não”, disse. - “Deus que me defenda que tu enterrou todos os que cuidou e eu ando sem pressa. Ansiosa era a cachorra da sua mãe”, respondeu agarrada em Jorge. 


Uma lágrima aqui, outra ali, ninguém deu escândalo no velório de Camille, mais por medo da promessa que ela fez em vida do que qualquer outra coisa. Quando um via o outro se emocionar um pouco mais, logo soltava. - “Deixa de choro que ela volta pra puxar seu pé, viu”. 


Os netos de Dona Camille se dividiam entre consolo, cerveja e histórias. O mais velho, Chico, ria do dia em que seu primeiro filho nasceu. Ele contava que sua avó esteve na sala de parto com sua esposa porque não permitiu que ninguém mais visse seu primeiro bisneto nascer. Disse que ela fez um escândalo com uma das enfermeiras que estava manuseando o bebê como um saco de farinha. “- Ela não se aguentava de ver ninguém pegar a gente com a mão pesada e cuidou de todos os que vieram a partir dela com todo o amor do mundo. Eu amava quando ela me passava dinheiro escondido dos meus primos”. 


Era um velório, sim, mas muito mais uma celebração de uma vida bem vivida e Dona Camille fez questão de pedir isso durante toda a sua jornada, que entendessem que sua partida não seria ruim porque voltar ao pó depois de viver tudo o que viveu era privilégio de poucos. Pediu um samba, cerveja em grande quantidade e deixou o dinheiro separado pra essa grande farra. Bem sabiam que ela era mesmo uma pessoa que tinha compromisso com o futuro, então ninguém achou nada estranho. Era uma velha chata, sim, beberrona e faladeira, mas amou como ninguém jamais ouviu falar e deixou como legado uma família que sabia fazer amor e festa.  


Desafogos, ou cartas pra mim mesma

Faz 13 anos que minha avó morreu. Foi quinze dias depois da minha festa de 15 anos, que ela fez questão de comemorar, já alguns dias depois do meu aniversário. Tudo corrido, improvisado, mas saiu. Eu não sabia da gravidade da doença dela, me ocultaram. Eu não vi que estava perdendo minha avó. No dia que ela morreu, eu perdi o chão. Foi o pior dia da minha vida, mas eu tive sorte de ser avisada por uma criança. “vovó nininha foi pro céu’. Eu saí desesperada pela casa e encontrei umas tias consolando minha madrinha, a filha mais velha da minha avó. Eu chorava de susto, de uma dor que eu nunca tinha sentido, chorava também por ver minha madrinha chorando. Nada ali fazia sentido pra mim. No enterro eu não consegui ficar mais de dez minutos, minha família nem permitiu que eu acompanhasse. Fui pra casa da outra avó e dormi o dia inteiro, eu estava em choque. Desde então, eu venho lidando com a dor dessa perda.


Uma vez me contaram que a dor vai dando lugar a uma saudade boa, de sorrisos e memórias. Mas há pouco tempo, beirando os 28 anos, essa dor me invadiu novamente e foi muito estranho. Eu estava voltando de algum lugar com meu marido, pensei nela, imaginei como seria tê-la aqui comigo, adulta, e uma dor me atravessou sem avisar. 


Fiquei questionando o porquê de tanto tempo depois essa dor ainda doer dessa forma se me ensinaram que passa. Em terapia, Josy me perguntou o motivo de eu estar desqualificando o meu sentimento, o meu luto. Eu fiquei pensando sobre isso. Óbvio que eu não me desmereci conscientemente, eu só não entendi que ainda podia doer tanto. Até hoje continuo sentindo falta da minha avó e entendi com a maturidade que perdemos momentos muito preciosos. 


Minha avó morreu aos 57 anos, de algo que eu ainda não sei exatamente o que foi, porque os mais velhos evitaram falar sobre isso durante anos e depois eu fui perdendo a coragem de perguntar. Ela me criou até os 12, morreu 3 anos depois e eu me peguei inconformada com a brevidade de uma vida que era tão importante pra mim. 


Hoje me deu vontade de escrever sobre como eu imagino que seria se ela tivesse aqui, mas dá uma preguiça danada, sabe? Primeiro porque eu entendo que a vida tem um curso inevitável e segundo porque a falta dela permitiu que eu crescesse mais depressa porque eu me vi sem meu maior porto seguro. Mas ouvindo as músicas que ela gosta de ouvir, eu me imagino sentada nos pés dela, possivelmente dividindo uma cerveja (possivelmente porque eu não sei se ela me daria essa confiança de beber junto porque mãe não serve filho na minha família, mas no caso de vó, né, vai saber. rs), rindo dos casos que ela contava. Eu penso no quanto ela amaria o Renan, meu marido, e de como eu ficaria orgulhosa com a relação deles. Penso nos conselhos que receberia, principalmente sobre como lidar com a minha mãe. Penso no orgulho danado que ela teria da mulher que eu sou hoje, nas festas de aniversário que eu faria questão de preparar pra ela. No “tô com a minha avó, hoje não posso” que meus amigos tanto ouviriam. Penso nela ansiosa pelo filho que quero ter, na galinha com quiabo que ela me ensinaria a fazer e depois aprovaria, dando um toque ou outro. Mas é tudo ideia, né. Eu me delicio e sofro com essas imaginações, mas hoje me permiti sentir e chorar a falta que minha avó faz depois de 13 anos de morta. Sei que meu reforço com Deus no céu tá grande por conta dela que intercede por mim e sinto um amor que me ronda e me envolve. Um amor que segue motivando meus dias, me ensinando a ser boa como ela era. Te amo, viu, dona Dulcenir. Que nosso amor pra sempre viva até chegar a hora da gente se encontrar de novo.