Era uma terça de sol no fim de agosto, na sala apertada estavam umas 8 ou 10 pessoas. Algumas choravam, outras contavam causos da defunta. A porta da capela abriu e entrou uma jovem senhora que beirava uns 90 anos. Ela não tinha o aspecto denso como os demais e não deu espaço para que ninguém a alcançasse até que chegasse à beira do caixão. - “Inda foi antes de mim, né. Ansiosa pra caralho toda a vida, nunca vi. Vê se pelo menos manda alguma notícia de como é o inferno pra eu me preparar”. Ouviu-se alguns risos. Essa senhora era uma amiga de mocidade de Dona Camille, seu nome poderia ser uma penca: Luciana, Thayná, Roberta, Maria, Juliana, Fabiane, Carolina… mas vou manter o mistério por aqui.
Depois disso, ela se encaminhou pra uma mulher de meia idade que chorava sentada ao lado do caixão. - “Nina, cadê seu irmão?”. A mulher afundada em lágrimas só conseguiu apontar para a direção de um botequim. A jovem senhora acrescentou: - “E tu, tá aqui chorando por quê? Essa velha safada morreu como queria: na puta que pariu, dormindo, no mês mais sem graça do ano e depois de um porre. Por falar em porre, a gente precisa adiantar o nosso pra não desagradar a finada. Bora lá encontrar seu irmão, vamos, levanta”.
No caminho até o bar foram alguns abraços e algumas palavras de condolências. Jorge estava cantando um samba bonito de Jorge Aragão quando avistou uma das suas tias mais queridas se aproximando com sua irmã Nina. Ao lado dele mais uma penca de jovens senhores batucando e empenhados em não deixar à mostra o fundo do copo Nadir. “Não teve amor maior, ninguém foi tão melhor, como é que eu vou esquecer você…”, cantavam em coro.
Depois do samba, Jorge foi abraçar sua tia jovem senhora. “Eu vou me mudar lá pra sua casa que agora eu não me desacostumo a cuidar de velho mais, não”, disse. - “Deus que me defenda que tu enterrou todos os que cuidou e eu ando sem pressa. Ansiosa era a cachorra da sua mãe”, respondeu agarrada em Jorge.
Uma lágrima aqui, outra ali, ninguém deu escândalo no velório de Camille, mais por medo da promessa que ela fez em vida do que qualquer outra coisa. Quando um via o outro se emocionar um pouco mais, logo soltava. - “Deixa de choro que ela volta pra puxar seu pé, viu”.
Os netos de Dona Camille se dividiam entre consolo, cerveja e histórias. O mais velho, Chico, ria do dia em que seu primeiro filho nasceu. Ele contava que sua avó esteve na sala de parto com sua esposa porque não permitiu que ninguém mais visse seu primeiro bisneto nascer. Disse que ela fez um escândalo com uma das enfermeiras que estava manuseando o bebê como um saco de farinha. “- Ela não se aguentava de ver ninguém pegar a gente com a mão pesada e cuidou de todos os que vieram a partir dela com todo o amor do mundo. Eu amava quando ela me passava dinheiro escondido dos meus primos”.
Era um velório, sim, mas muito mais uma celebração de uma vida bem vivida e Dona Camille fez questão de pedir isso durante toda a sua jornada, que entendessem que sua partida não seria ruim porque voltar ao pó depois de viver tudo o que viveu era privilégio de poucos. Pediu um samba, cerveja em grande quantidade e deixou o dinheiro separado pra essa grande farra. Bem sabiam que ela era mesmo uma pessoa que tinha compromisso com o futuro, então ninguém achou nada estranho. Era uma velha chata, sim, beberrona e faladeira, mas amou como ninguém jamais ouviu falar e deixou como legado uma família que sabia fazer amor e festa.