segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Desafogos, ou cartas pra mim mesma

Faz 13 anos que minha avó morreu. Foi quinze dias depois da minha festa de 15 anos, que ela fez questão de comemorar, já alguns dias depois do meu aniversário. Tudo corrido, improvisado, mas saiu. Eu não sabia da gravidade da doença dela, me ocultaram. Eu não vi que estava perdendo minha avó. No dia que ela morreu, eu perdi o chão. Foi o pior dia da minha vida, mas eu tive sorte de ser avisada por uma criança. “vovó nininha foi pro céu’. Eu saí desesperada pela casa e encontrei umas tias consolando minha madrinha, a filha mais velha da minha avó. Eu chorava de susto, de uma dor que eu nunca tinha sentido, chorava também por ver minha madrinha chorando. Nada ali fazia sentido pra mim. No enterro eu não consegui ficar mais de dez minutos, minha família nem permitiu que eu acompanhasse. Fui pra casa da outra avó e dormi o dia inteiro, eu estava em choque. Desde então, eu venho lidando com a dor dessa perda.


Uma vez me contaram que a dor vai dando lugar a uma saudade boa, de sorrisos e memórias. Mas há pouco tempo, beirando os 28 anos, essa dor me invadiu novamente e foi muito estranho. Eu estava voltando de algum lugar com meu marido, pensei nela, imaginei como seria tê-la aqui comigo, adulta, e uma dor me atravessou sem avisar. 


Fiquei questionando o porquê de tanto tempo depois essa dor ainda doer dessa forma se me ensinaram que passa. Em terapia, Josy me perguntou o motivo de eu estar desqualificando o meu sentimento, o meu luto. Eu fiquei pensando sobre isso. Óbvio que eu não me desmereci conscientemente, eu só não entendi que ainda podia doer tanto. Até hoje continuo sentindo falta da minha avó e entendi com a maturidade que perdemos momentos muito preciosos. 


Minha avó morreu aos 57 anos, de algo que eu ainda não sei exatamente o que foi, porque os mais velhos evitaram falar sobre isso durante anos e depois eu fui perdendo a coragem de perguntar. Ela me criou até os 12, morreu 3 anos depois e eu me peguei inconformada com a brevidade de uma vida que era tão importante pra mim. 


Hoje me deu vontade de escrever sobre como eu imagino que seria se ela tivesse aqui, mas dá uma preguiça danada, sabe? Primeiro porque eu entendo que a vida tem um curso inevitável e segundo porque a falta dela permitiu que eu crescesse mais depressa porque eu me vi sem meu maior porto seguro. Mas ouvindo as músicas que ela gosta de ouvir, eu me imagino sentada nos pés dela, possivelmente dividindo uma cerveja (possivelmente porque eu não sei se ela me daria essa confiança de beber junto porque mãe não serve filho na minha família, mas no caso de vó, né, vai saber. rs), rindo dos casos que ela contava. Eu penso no quanto ela amaria o Renan, meu marido, e de como eu ficaria orgulhosa com a relação deles. Penso nos conselhos que receberia, principalmente sobre como lidar com a minha mãe. Penso no orgulho danado que ela teria da mulher que eu sou hoje, nas festas de aniversário que eu faria questão de preparar pra ela. No “tô com a minha avó, hoje não posso” que meus amigos tanto ouviriam. Penso nela ansiosa pelo filho que quero ter, na galinha com quiabo que ela me ensinaria a fazer e depois aprovaria, dando um toque ou outro. Mas é tudo ideia, né. Eu me delicio e sofro com essas imaginações, mas hoje me permiti sentir e chorar a falta que minha avó faz depois de 13 anos de morta. Sei que meu reforço com Deus no céu tá grande por conta dela que intercede por mim e sinto um amor que me ronda e me envolve. Um amor que segue motivando meus dias, me ensinando a ser boa como ela era. Te amo, viu, dona Dulcenir. Que nosso amor pra sempre viva até chegar a hora da gente se encontrar de novo. 


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