quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O efeito que a leitura nos aborda

Uma resenha crítica sobre o livro Ensaio sobre a cegueira de José Saramago.

Primeiramente, quem carecer de óculos para ler, o fará, de tão impressionante ser o medo de perder a visão que acompanha a trama.

E assim será durante todo o percurso da leitura: o medo de perder a visão, de dormir lendo e acordar sem poder continuar. Fora quando seus olhos começam a não ver tão bem o texto. Chega-se a imaginar ser uma pegadinha do próprio livro: uma mudança de fontes, só pra deixar quem lê um pouco desesperado e mais atento à sua própria visão. Mas não é uma pegadinha. Aliás, nada na história tem o aspecto lúdico. Não é recomendado ler apenas para mero entretenimento, já que o discurso livre indireto quebra o padrão de leitura fácil. Sendo sem regras, sem muita pontuação e sem marcação de fala dos personagens, requer muito mais atenção do que geralmente se busca no puro entretenimento.

O Ensaio sobre a cegueira é um alarme à sociedade, é um sofrimento imenso que atinge a todos os envolvidos: personagens, autor, leitor. Não é uma leitura imparcial, onde o leitor fica em seu confortável lugar de mero expectador. É uma leitura questionadora, onde se perde à todo momento o foco do livro para traçar paralelos com a própria vida, imaginando-se em muitas das situações vividas pelas personagens, sentindo até algumas vezes na própria pele a história e a constante necessidade de fazer valer à pena sua visão e sua participação no mundo como ser humano efetivamente humanizado.

O que mais encanta nessa prosa é justamente o reconhecimento de ser humano, de ser gente, se fazer gente e imaginar-se bicho, tal qual as personagens. "O que faria eu?". "Imagine se fico sem comida, sem banho, sem família...", "Será que eu me deixaria ser violentada para poder alimentar a mim e a quem mais precisasse do meu sacrifício?".

Muito além de torcer por quem vive a história, no livro torcemos por nossa própria existência, para que ela nunca chegue a ser o que estamos lendo. Preocupa muito mais saber o que ainda se pode passar do que como terminará a história e nessa leitura nos encontramos com nossos medos e descobrimos que somos até mais temerosos do que aparentemente.

O Ensaio sobre a cegueira nos mostra que somos seres limitados, medrosos e cômodos, pois vivemos em sociedade, onde tudo é demasiadamente "fácil". Nos vestimos e alimentamos sem esforço. Tudo nos é dado, em comparação à uma vida selvagem, a qual se submete as personagens do livro.

Observa-se a fragilidade do ser humano como um todo, que atinge ricos e pobres, fortes e fracos, negros e brancos. Saramago não faz essa distinção, ele muito pelo contrário, nos mostra como no fundo somos todos iguais - feitos de carne e osso, e só se dá conta disso quando a situação se impõe maior do que qualquer diferença.

Saramago nos propõe uma reflexão dolorosa e altamente visceral ao escrever a vivência de um mundo sem visão literal. Alarmando a visão superficial que temos de nós mesmos e do mundo em que habitamos, faz-nos pensar em ser melhores, mais preocupados e de olhos bem abertos para mais do que simplesmente ver, reparar o que se vive, onde se vive e como se vive.

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