terça-feira, 17 de novembro de 2009

Rio de Janeiro, 25 de outubro de 2008 - 20h

Estávamos próximos ao natal. Bem, para ser mais exata, estávamos mais próximos ao dia de Finados, mas não gosto de usar essa data como referência. Então, para situar-te de forma agradável no tempo, uso do natal.
Bem, o dia tinha começado a clarear há pouco mais de uma hora e meia (contando com o horário de verão). Não era o meu horário habitual, mas nesta semana vinha sendo e, por acaso (ou não), o ônibus neste dia não estava cheio e eu pude escolher com quem sentaria. Para não ficar muito na vista e para não parecer muito antipática, dei uma olhada rápida nas opções e me sentei ao lado de um homem grande. O motivo da minha escolha não foi a boa aparência dele, não somente, o que contou bastante foi o fato de ser o último assento próximo à saída. Como eu nunca tinha visto esse ônibus 'vazio' pela manhã, imaginei o que estaria por vir...
Me sentei, ele havia acabado de ler o jornal, o guardou no momento em que eu buscava meu livro na bolsa e fechou os olhos quando eu comecei a minha leitura. Minha atenção dividia-se entre meu livro encalhado na mesma página há longas semanas, no homem que dormia ao meu lado e no que aquela cena me remetia: minha sobra de paixão.
Não sei se foi por lembrar do outro, mas este homem que dormia ao meu lado exalava um perfume conhecido e por não conseguir identificar rapidamente, fui me aproximando dele, de modo que meu ombro e minhas pernas estavam juntos ao seu corpo. Fui me aproximando e sentindo o calor daquela pele perfumada. Eu estava meio em transe e nem sei se alguém naquele ônibus reparava minha ação.
Comecei a estudar aquele homem com uma barba clara por fazer, com a cabeça oval, cílios grandes, sobrancelhas espessas e olhos fechados sob um par de lentes com armação sutil. Vestia uma camiseta básica com uma etiqueta presa para fora deixando ler opção em letras vermelhas. Usava calça jeans básica e tênis. Seus ombros era largos, de maneira que tive de encaixar os meus por baixo dos seus. Suas mãos estavam uma por cima da outra apoiadas em sua machila, que mais parecia uma pasta.
De modo geral, aquele homem me fez lembrar do último cara que gostei, apesar de não ter nada em comum. Esse outro é magro, tem cabelos maiores, barba quase sempre bem feita e nunca o vi dormir. Acho que só lembrei dele mesmo após imaginar como seria minha vida se o homem do ônibus estivesse nela. Me imaginei ali, dormindo com ele e que ao invés de suas mãos estarem unidas, estivessem na minha. O Imaginei sorrindo, olhando para mim com aquele olhar que só pude encontrar por três ou quatro segundos. Senti um enorme desejo de beijar aquele homem e só não o fiz por ter medo. E até onde será que o medo atrapalha? Ou ajuda?
Aconteceu que aquele homem dormindo simplesmente me fez pensar em paixão, desejo, dúvida, medo...
O meu destino se aproximava e eu não sabia o que fazer, meu corpo não reagia, por pouco perco o ponto. Desci sem conseguir olhá-lo pela última vez e lembrei dele ao dormir no próximo ônibus em que entrei. Um homem sentou-se ao meu lado e eu cerrei as pálpebras...

Essa história se passou e eu esqueci daquela pessoa, como imaginava. Hoje ao entrar nesse mesmo ônibus o vejo lendo novamente um jornal e quando me aproximo tenho a sensação de que é o mesmo jornal daquele dia. Seria uma nova oportunidade de fazer o que sentia ou apenas um mero segundo acaso? Dessa vez eu não pego o meu livro e fico observando novamente aquele homem ao meu lado, com ombros largos e barba por fazer e dessa vez tenho a sensação de que a viagem será mais interessante!

Nenhum comentário:

Postar um comentário